Blog da Pands

22/05/2009

HOJE NO CADERNO DE ESPORTES DA FOLHA

XICO SÁ

Quem tem medo de palavrão?


Ele é uma bênção no futebol, na literatura, na topada, no desafogo, no pânico, no trânsito de SP. E na cama



AMIGO TORCEDOR , amigo secador, em uma ida ao campo de futebol o homem diz mais palavrões do que nos gritos e sussurros de alcova durante a sua vida inteira. Não é diferente no sofá de casa, e o mesmo acontece com os técnicos, os digníssimos professores, e com os boleiros, mesmo os santinhos do pau oco e os sonsos atletas de Cristo.
Em uma pelada, mesmo de criança, fala-se mais palavrões do que na última casa de tolerância da Vila Mimosa. Como me disse uma noite a Tia Olga, madame responsável pela iniciação sexual de muitos garotos de São Paulo, todo homem ao chegar ao baixo meretrício ganha ar solene, circunspecto, grave, respeitoso. É no futebol que a criatura, antes da chamada fase oral canibalística, manifesta-se um marquês de Sade.
As histórias em quadrinhos do livro "Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol" (ed. Via Lettera) são fichinhas, café pequeno, Zibia Gasparetto, padre Zezinho, uma Bíblia diante de um menino de nove anos e sua turma atrás da bola. Cito o tal livro devido à sua adoção seguida de banimento em escolas estaduais paulistas, como vimos nesta Folha. Não julgo quem o acolheu nem quem o demonizou. Não tenho ciência pedagógica para a valiosa tarefa, mas duvido de que o referido conteúdo fosse espantar alguém que já bateu uma pelada.
Sim, pode ser inadequado, no sentido moral e cívico, para a faixa etária do ensino básico, mas a gurizada iria se divertir e se interessar mais pela leitura do que sob a palmatória da chatice bilaquiana ou alencarina. "Última flor do Lácio, inculta e bela,/ És, a um tempo, esplendor e sepultura;/ Ouro nativo, que na ganga impura/ A bruta mina entre os cascalhos vela..." E dá-lhe Bilac na rapaziada.
Aqui em casa eu prefiro o time que contou as inocentes historinhas do "Dez na Área": Allan Sieber, Caco Galhardo, Custódio, Fábio Moon e Gabriel Ba, Fabio Zimbres, Lelis, Leonardo, Maringoni, Osvaldo Pavanelli e Emílio, Samuel Casal e Spacca. Tem ainda o Karmo, na posição de gandula.
Noves fora o quiprocó pedagógico, é mesmo um belo livro sobre futebol. Como diz o genial Tostão no prefácio: "Faltava uma obra como essa para crianças e adultos". A maldade do palavrão está na cabeça de quem o condena. O palavrão é bênção divina no futebol, na literatura, no desafogo, na topada, no pânico, no trânsito. E na cama.
Agora lembrei de uma fala de Ronaldo na sabatina da Folha. "Ele [Ronald] é uma criança doce, que não fala palavrão, é educado. É praticamente um europeu", disse ele, sobre o filho que vive na Europa. Mal sabe o Fenômeno que o acervo de palavras cabeludas de muitos países de lá é infinitamente mais rico do que o nosso, como lembra o sociólogo Gilberto Freyre no prefácio do "Dicionário do Palavrão", obra do pernambucano Mário Souto Maior (ed. Record).
A versão alemã de livro do gênero, que inspirou a edição brasileira, tem 9.000 verbetes. O volume nacional ficou em um terço dessa maçaroca. Na França e na Espanha, puta madre, nem se fala. Coisa de botar no chinelo a "Mesa-redonda sexo-futebol debate!", a sensacional história narrada pelo Caco Galhardo que fecha o "Dez na Área...".

Escrito por cg às 15h18

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20/05/2009

Escrito por cg às 17h11

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CASO ENCERRADO

O ORLANDO, meu amigo e ilustrador, foi quem organizou o álbum com a melhor das intenções e é um cara ponta firme. Como agora ele foi parar bem no meio desse fogo cruzado, me avisou que tomou as rédeas do caso e que vai tentar resolver o imbroglio da melhor maneira possível. Então, em nome da minha amizade com o Orlando, estou tirando meu time de campo. Quer saber, já me enchi disso aí, volto pros quadrinhos, que é o que me diverte.

Escrito por cg às 17h10

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ÚLTIMA NOTA SOBRE A POLÊMICA

Não vou nem falar mais sobre os quadrinhos. O fato é que todos os cartunistas trabalharam no álbum no melhor espírito de "brodagem". Ninguém recebeu nada e nem assinou contrato. Aí a EDITORA VIA LETTERA, sem avisar nenhum dos autores, inscreveu o livro para a compra governamental e entrou na lista.  O que é bem estranho. Pelo que me consta, pra isso acontecer tem que ter um documento assinado pelos autores. Não tem nada assinado, os caras fizeram tudo na surdina e receberam toda a grana. Como, só Deus sabe. De uma hora pra outra vem a notícia que o quadrinho está nas escolas, e aí a mídia e o Serra vêm numas de espinafrar o álbum e as HQs, que por sua vez não têm absolutamente nada de errado. Já vi Editora sacanear autor, mas dessse jeito já é demais. Já tem advogado me ligando querendo meter um processo contra a Via Lettera. Quer saber, acho que os caras estão merecendo.  

Escrito por cg às 12h07

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19/05/2009

TRAPALHADA DO GOVERNO E OUTRAS DUAS NOTÍCIAS MUITO MAIS IMPORTANTES

O jornal de hoje está recheado. Primeiro a trapalhada do governo e que me diz respeito. Faz não sei quantos anos que desenhei uma HQ para uma coletânea de quadrinhos sobre futebol, o "DEZ NA ÁREA, UM NA BANHEIRA E NENHUM NO GOL". O álbum é bacana, tem um bando de gente legal participando e várias HQs ótimas.  A minha é uma tiração de sarro das mesas redondas de futebol, em que misturo sexo como linguajar do futebol. Uma putaria sem fim, com uma média de dez palavrões cabeludos pra cada balão. Ontem me liga o Fabio Takahashi, da Folha, e me conta que o album foi adotado pelo GOVERNO (cerca de mil exemplares) para distribuir em escolas públicas, para crianças. Ele me perguntou o que eu achava. Bem, respondi que o cara que aprovou isso certamente NÃO LEU minha HQ. Agora devem estar arrancando os cabelos. Uma mistura de incompetência do governo com ganância da Editora Via Lettera, que também deveria ter pensado duas vezes antes de botar a mão nessa grana. Eu por exemplo, não recebi um puto pela HQ e agora tenho que dar entrevista pra CBN e explicar que essa HQ jamais deveria entrar em uma sala de aula. Se bem que tenho recebido alguns emails de amigos e leitores dizendo que uma HQ de putaria minha pode ser muito instrutiva, mesmo em saula de aula. Como diz meu amigo Marcelo Mirisola, a infância pode ser sórdida pra quem souber aproveitá-la.

Mas nada disso tem importância, não é mesmo? Anteontem morreu o escritor uruguaio MARIO BENEDETTI aos 88 anos, que em 1960 escreveu TRÉGUA, um dos romances mais lindos já escritos no lado de cá do mundo. Triste perda.

Em compensação, ontem, depois de quase um ano afastada, a MARIA SHARAPOVA voltou às quadras. Grande ALÍVIO.

Escrito por cg às 13h32

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